[Artigo] A Rainha da Lavoura

Por André Luis Mansur

Quando não existiam ainda as agências bancárias e suas incômodas portas giratórias, era no Café e Bar do Lavrador, no centro de Campo Grande, que os agricultores recebiam o pagamento das colheitas. Traziam o produto da lavoura, geralmente, do Rio da Prata ou da Ilha de Guaratiba, no já mencionado bonde taioba. Chegando a Campo Grande, a colheita era entregue ao distribuidor e o dinheiro recebido no Café e Bar do Lavrador. Na maioria das vezes, os agricultores ficavam algum tempo nos bares da região, aproveitando, provavelmente, a única chance no mês de sair da roça e ir até a “cidade grande”.

A vida na roça do Rio da Prata era dura, porém bem mais saudável que nos dias de hoje. Levantavam muito cedo, comiam bem antes de ir para o trabalho, e o almoço começava com uma sopa feita de praticamente tudo o que se plantava no local. À noite, dormiam cedo. Um detalhe interessante é que, como não havia geladeira, conservavam a carne em banha de porco. Nada de aditivos, conservantes e outras porcarias. Quem vai àquela região encontra muita gente que passa dos 90 e ainda goza de boa saúde, resultado, com certeza, da vida na roça. Moradores antigos contam que o posto de saúde do Rio da Prata, assim como outros da região, ofereciam à população uma sopa do tipo “de entulho”, com tudo que é tipo de verdura e legume produzidos lá mesmo. Alguns quartéis faziam o mesmo, numa atitude que hoje recebeu o nome de “medicina preventiva”, pois o indivíduo bem alimentado já elimina a probabilidade de adquirir certas doenças.

Uma das principais festas de Campo Grande era justamente a festa da lavoura, quando elegiam a Rainha da Lavoura. A última rainha, Maria das Dores Santos Pinto, foi eleita em 1957, na inauguração do Viaduto Alim Pedro, no centro do bairro. Uma foto a mostra no alto de um carro puxado por uma parelha de bois, com as damas de honra na frente e, em volta, o povo amontoado. É claro que o pai da rainha, seu José dos Santos, mais conhecido como Zé dos Santos, ficava ao lado dela, atento a qualquer galanteador mais ousado. Maria das Dores mora até hoje em Campo Grande e mantém a tradição de sempre reunir a família (bem grande, por sinal) em caprichados almoços de domingo, muitas vezes com receitas aprendidas na saudável época da zona rural.

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