[Artigo] O bonde Madureira-Santa Cruz

O bonde Madureira-Santa Cruz

Por André Luis Mansur

Se o transporte nos subúrbios cariocas é alvo de muitas críticas, não era lá muito diferente nos primeiros anos do século XX, principalmente “porque em todo o vasto subúrbio existe apenas, como meio de transporte, o sujo e sempre atrasado comboio da E.F. Central do Brasil” (A Noite, 16/6/1913). Para os moradores de Santa Cruz, por exemplo, a viagem até o centro do Rio de Janeiro equivalia a “uma longa excursão durante dias e dias, tal o cansaço e o enfado com que se chega” (A Noite, 16/6/1913). Nada diferente do que vemos hoje, infelizmente. Mas uma solução parecia surgir no fim do túnel, ou melhor, no fim do trilho.

Os bondes já eram uma realidade na área central do Rio de Janeiro desde o século anterior, mas para a zona rural ainda eram raros, como os de Campo Grande, implantados em 1894, mas que só iriam atingir lugares mais distantes, como Pedra e Ilha de Guaratiba, a partir de 1917. Até então, eles seguiam apenas até a Estrada do Monteiro e, mesmo assim, movidos à tração animal.

Mas em 1913 o engenheiro Wilhelm Brossenius enviou um projeto ao Conselho Municipal, propondo a criação de uma linha elétrica de ferro-carril (como eram chamadas as linhas de bonde) ligando os bairros de Madureira a Santa Cruz, em um percurso de 38 Km no ramal principal, e que trazia também sub-ramais por vários bairros. Eram eles:

– De Madureira a Realengo, acompanhando a Estrada Real de Santa Cruz (10 Km);

– De Realengo a Campo Grande, passando pelas Fazendas do Retiro e Capoeiras (16 Km);

– Do Retiro à Fazenda Guandu do Sena, seguindo o rio Guandu do Sena (18 Km). Um outro ramal na mesma região, acompanhado a Estrada do Rio da Prata do Mendanha (4 Km);

– De Campo Grande, acompanhando a Estrada dos Palmares (16 Km e 250 metros), e mais um sub-ramal, de Campo Grande à Estrada do Viegas, acompanhando a Estrada do Joary (atual rua Olinda Ellis), até o Rio da Prata do Cabuçu (11 Km).

O espaço entre os trilhos seria de 1 metro e a largura dos bondes de 1,66m. Os trilhos ficariam ao nível do calçamento, para não atrapalhar o trânsito de outros veículos, e os bondes funcionariam das 4 horas da manhã até as 9 horas da noite, com uma intervalo, no máximo, de uma hora entre as saídas. O sistema também contaria com plataformas para pequenos volumes, freios aperfeiçoados e aparelhos salva-vidas. 

Apesar de o projeto ser bem detalhado, e de haver um parecer positivo, até então, do Conselho Municipal, a linha de bondes entre Madureira e Santa Cruz, com seus ramais por dentro de vários bairros, jamais saiu do papel, seja por falta de dinheiro, ou algum outro motivo. 

* Ilustração: Jornal A Noite – 16/6/1913

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